Dra. Beatriz Elias Ribeiro ao centro, com ilustrações em aquarela de estruturas de DNA e desenvolvimento fetal, representando a realização do exame NIPT

O que é NIPT e qual a sua função na gravidez?

O NIPT (Teste Pré-Natal Não Invasivo) é um exame de sangue materno que analisa fragmentos do DNA do bebê para rastrear o risco de síndromes genéticas, como a Síndrome de Down, a partir da 9ª semana de gestação.

Receber o resultado positivo de um teste de gravidez traz consigo uma mistura de alegria, expectativa e, naturalmente, algumas preocupações. Uma das principais dúvidas das famílias é sobre a saúde e o desenvolvimento do bebê. Felizmente, a medicina obstétrica evoluiu muito nos últimos anos, oferecendo ferramentas cada vez mais seguras e precisas para acompanhar a gestação desde as primeiras semanas.

Em meu consultório, percebo que muitas gestantes chegam apreensivas quando o assunto é o rastreamento de alterações genéticas. O medo de exames invasivos e o desejo de ter respostas rápidas são sentimentos comuns e totalmente compreensíveis. É exatamente nesse cenário que o NIPT se destaca como um grande aliado do pré-natal.

O teste revolucionou a forma como avaliamos a saúde fetal, permitindo um rastreio de alta precisão sem colocar a mãe ou o bebê em risco. Ao longo deste artigo, vamos conversar sobre como esse exame funciona, quais condições ele consegue detectar e quando ele costuma ser recomendado.

O que é o exame NIPT e como ele funciona?

Durante a gravidez, a placenta não atua apenas como uma via de nutrição para o bebê. Ela também libera pequenos fragmentos de DNA na corrente sanguínea da mãe, conhecidos como DNA fetal livre (cfDNA, na sigla em inglês).

O NIPT, sigla para Non-Invasive Prenatal Testing (Teste Pré-Natal Não Invasivo, em português), é um exame que coleta uma amostra do sangue materno e, em laboratório, consegue separar e analisar esses fragmentos de DNA do bebê que estão circulando no corpo da mulher.

O principal objetivo dessa análise é observar os cromossomos. Os seres humanos possuem, em regra, 46 cromossomos organizados em 23 pares. Quando há um cromossomo a mais em algum desses pares, temos o que a medicina chama de trissomia. O NIPT conta esses fragmentos genéticos para identificar se há uma quantidade maior de material referente a determinados cromossomos, o que indicaria um alto risco para algumas síndromes genéticas.

Por que ele é chamado de “não invasivo”?

O termo “não invasivo” significa que o procedimento não invade o ambiente uterino. Para realizar o NIPT, basta uma simples coleta de sangue da veia do braço da gestante, exatamente como é feito em um hemograma de rotina. Não há o uso de agulhas na barriga, não há punção do líquido amniótico e, consequentemente, não há risco de aborto associado à coleta.

Quais condições o NIPT consegue detectar?

A precisão do NIPT é muito alta, superando 99% para algumas das alterações cromossômicas mais comuns. Ele é desenhado para rastrear, principalmente, as trissomias. As principais condições avaliadas incluem:

  • Síndrome de Down (Trissomia 21): A alteração cromossômica mais conhecida, caracterizada pela presença de uma cópia extra do cromossomo 21.

  • Síndrome de Edwards (Trissomia 18): Uma condição genética mais grave que afeta o desenvolvimento de múltiplos órgãos do bebê.

  • Síndrome de Patau (Trissomia 13): Outra alteração genética severa que compromete a formação neurológica e física.

  • Alterações nos cromossomos sexuais: O teste pode identificar condições relacionadas aos cromossomos X e Y, como a Síndrome de Turner (ausência de um cromossomo X em meninas) e a Síndrome de Klinefelter (presença de um cromossomo X extra em meninos).

NIPT Básico e NIPT Ampliado

Atualmente, existem diferentes painéis do exame. O NIPT básico foca nas três principais trissomias (21, 18 e 13) e nas alterações dos cromossomos sexuais. Já o NIPT ampliado pode investigar todos os 23 pares de cromossomos e pesquisar microdeleções, que são perdas de pequenos pedaços de DNA responsáveis por síndromes raras. A escolha entre eles deve ser feita em conjunto com a sua obstetra, avaliando o histórico familiar e as reais necessidades da gestação.

Quando é indicado fazer o teste pré-natal não invasivo?

O NIPT pode ser realizado a partir da 9ª ou 10ª semana de gestação, dependendo do laboratório. Antes desse período, a quantidade de DNA fetal no sangue materno (chamada de fração fetal) pode ser insuficiente para uma análise precisa, o que exigiria uma nova coleta de sangue dias depois.

Embora o exame possa ser feito por qualquer gestante que deseje mais tranquilidade e informações sobre a saúde do bebê, as sociedades médicas e diretrizes internacionais recomendam fortemente que o NIPT seja oferecido, sobretudo, quando há:

  • Idade materna avançada (geralmente acima dos 35 anos).

  • Histórico de gestação anterior com alteração cromossômica.

  • Resultado de alto risco no rastreamento de primeiro trimestre (quando o ultrassom morfológico detecta alterações como o aumento da translucência nucal).

  • Histórico familiar de alterações genéticas.

Como é feito o exame NIPT na prática?

Para a paciente, a realização do NIPT é muito simples e indolor, exigindo um preparo mínimo.

  1. Aconselhamento e pedido médico: Durante a consulta de pré-natal, avaliamos o histórico e o momento da gestação para preencher o pedido do exame.

  2. Agendamento no laboratório: A gestante se dirige ao laboratório de confiança para a coleta.

  3. Coleta de sangue: É retirada uma pequena amostra de sangue do braço da mãe. Na grande maioria dos laboratórios, não é necessário estar em jejum.

  4. Análise e resultado: A amostra é enviada para sequenciamento genético. O laudo costuma ser liberado entre 7 e 14 dias.

Quando o laudo chega, avaliamos os resultados juntas no consultório, com calma e transparência, para que não fiquem dúvidas.

O exame também descobre o sexo do bebê?

Sim. Como o NIPT avalia os cromossomos fetais circulantes no sangue materno, ele consegue identificar a presença ou ausência do cromossomo Y (masculino). Portanto, além de rastrear síndromes, o NIPT fornece o sexo do bebê com um índice de acerto superior a 99%.

Muitas mulheres questionam se o NIPT e o exame de Sexagem Fetal são a mesma coisa. Eles são semelhantes na forma de coleta e no fato de ambos procurarem o cromossomo Y, mas a Sexagem Fetal tem o objetivo exclusivo de descobrir o sexo do bebê e é bem mais simples (e acessível financeiramente). Já o NIPT é um rastreamento genético profundo e complexo, que traz o sexo do bebê como uma informação adicional.

Qual é a diferença entre o NIPT e a Amniocentese?

É fundamental compreender que o NIPT é um exame de rastreio, e não um exame de diagnóstico definitivo. Se o NIPT indicar um “alto risco” para alguma síndrome, a recomendação médica é confirmar essa informação através de um exame diagnóstico.

A tabela abaixo ajuda a visualizar as diferenças entre esses dois tipos de avaliação:

Característica NIPT (Teste Não Invasivo) Amniocentese (Exame Invasivo)
Objetivo principal Rastrear a probabilidade de síndromes. Diagnosticar alterações genéticas com certeza absoluta.
Como é feito Coleta de sangue do braço da mãe. Punção do líquido amniótico através do abdômen materno.
Risco para a gestação Sem risco para mãe ou bebê. Risco pequeno (menos de 1%) de abortamento ou perda de líquido.
Indicação inicial Pode ser feito por qualquer gestante a partir de 9 semanas. Indicado apenas quando há alterações no ultrassom ou NIPT alterado.

Como interpretar os resultados do exame?

Os laboratórios costumam liberar os resultados do NIPT em duas categorias principais: baixo risco ou alto risco.

  • Resultado de Baixo Risco: Significa que a probabilidade de o bebê ter as síndromes avaliadas é extremamente pequena, trazendo grande alívio para a família.

  • Resultado de Alto Risco: Significa que o exame encontrou fortes indícios de uma alteração cromossômica. É um momento que exige muito acolhimento, mas é importante lembrar que este não é um diagnóstico final. Nesse cenário, conversamos sobre os próximos passos e sobre a realização da amniocentese para confirmação.

Há também casos raros em que o resultado pode ser “inconclusivo”. Isso geralmente acontece quando a coleta foi feita muito cedo e a fração fetal de DNA no sangue da mãe era baixa, exigindo apenas que o exame seja refeito após alguns dias, sem nenhum custo extra e sem motivo para pânico.

O NIPT substitui o ultrassom morfológico?

Não. Essa é uma orientação indispensável no acompanhamento gestacional. O ultrassom morfológico do primeiro trimestre, realizado entre a 11ª e a 13ª semana e 6 dias, tem funções estruturais fundamentais que o exame de sangue não pode suprir.

O ultrassom avalia a anatomia do bebê, a formação inicial dos órgãos, a espessura da translucência nucal, o osso nasal, a posição da placenta e rastreia o risco de pré-eclâmpsia na mãe por meio do fluxo sanguíneo das artérias uterinas.

O ideal, para um pré-natal seguro e completo, é que o NIPT atue de forma complementar ao ultrassom morfológico, fornecendo uma visão ampla e detalhada sobre o desenvolvimento fetal.

Quando procurar uma obstetra?

A decisão de realizar exames genéticos durante a gravidez é muito pessoal e deve ser pautada por informação de qualidade, suporte e empatia. Ter o acompanhamento de uma profissional que conheça seus medos e expectativas faz toda a diferença nessa jornada.

Se você descobriu a gravidez recentemente, deseja iniciar o seu pré-natal ou quer conversar sobre qual é a melhor estratégia de rastreamento para o seu caso, uma consulta permite avaliarmos o seu histórico de forma individualizada, sem pressa. A Dra. Beatriz Elias Ribeiro realiza atendimento ginecológico e obstétrico no bairro de Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro, focando em um cuidado seguro, atualizado e profundamente humano.

Quais são as dúvidas mais comuns sobre o exame NIPT?

É normal ter medo do resultado do NIPT?

Sim, é perfeitamente normal. A gravidez é um período de grande vulnerabilidade emocional, e a ansiedade aguardando qualquer exame faz parte do processo. O acompanhamento obstétrico próximo ajuda a desmistificar esses medos e trazer segurança durante a espera.

O NIPT precisa ser feito em jejum?

Na grande maioria dos laboratórios, o exame não exige jejum. Você pode se alimentar normalmente antes da coleta de sangue, mantendo a sua rotina hídrica e alimentar para evitar mal-estar.

Mulheres grávidas de gêmeos podem fazer o NIPT?

Sim, gestantes de gêmeos podem realizar o teste, mas as informações obtidas são um pouco mais restritas. O exame avalia o risco de síndromes para a gestação como um todo, mas, na presença do cromossomo Y, não consegue determinar se apenas um ou ambos os bebês são meninos (no caso de gêmeos bivitelinos).

O Sistema Único de Saúde (SUS) ou os planos de saúde cobrem o NIPT?

Atualmente, o NIPT não faz parte do rol de procedimentos obrigatórios com cobertura pela maioria dos convênios médicos, nem está amplamente disponível no SUS, sendo considerado um exame particular. No entanto, algumas operadoras oferecem cobertura ou reembolso mediante justificativa médica específica, sendo importante consultar o seu plano.

Se o NIPT der baixo risco, estou garantida de que o bebê é totalmente saudável?

O NIPT rastreia especificamente alterações cromossômicas, como a Síndrome de Down, com mais de 99% de precisão. Contudo, ele não detecta doenças estruturais (como cardiopatias) ou genéticas pontuais que não envolvam os cromossomos analisados. Por isso, as consultas de rotina e os ultrassons continuam sendo essenciais.

O NIPT pode errar o sexo do bebê?

A precisão do exame para a sexagem fetal é superior a 99%. A chance de erro é mínima e geralmente está associada à coleta realizada precocemente (antes da 9ª semana), quando a quantidade de DNA fetal circulante ainda é muito baixa para ser detectada.

Tive um aborto recente e engravidei novamente. Posso fazer o NIPT?

Sim, porém é necessário relatar o histórico à obstetra e ao laboratório. O DNA fetal pode permanecer no sangue materno por algumas semanas após a interrupção de uma gestação anterior, o que poderia interferir no resultado do novo rastreamento se o intervalo de tempo for muito curto.

Fontes médicas consultadas

  • FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia): Diretrizes sobre o rastreamento de anomalias cromossômicas. (2021)

  • ACOG (American College of Obstetricians and Gynecologists): Practice Bulletin No. 226: Screening for Fetal Chromosomal Abnormalities. (2020)

  • Ministério da Saúde: Manual Técnico de Assistência Pré-Natal. (2012 / atualizações vigentes)

  • ISUOG (International Society of Ultrasound in Obstetrics and Gynecology): Consenso sobre a integração do DNA fetal livre no sangue materno (cfDNA) no rastreamento pré-natal.

Leia também:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *